Nos últimos dias, o governo chinês deu um passo ousado e sem precedentes na governança da inteligência artificial. A Cyberspace Administration of China (CAC), principal órgão regulador da internet no país, publicou um rascunho de novas e rigorosas regras para o setor. O anúncio, feito no final de dezembro de 2025, visa diretamente mitigar os perigos que a IA pode representar para crianças e adolescentes, abordando desde o tempo de uso até riscos de saúde mental e autolesão.
A medida surge em um momento de explosão global dos chatbots e agentes de IA, e coloca a China na vanguarda da tentativa de criar um ambiente digital mais seguro para os mais jovens. A proposta busca equilibrar a inovação tecnológica com a proteção dos cidadãos, uma discussão cada vez mais urgente em todo o mundo.
A proposta da CAC é um conjunto abrangente de diretrizes que os desenvolvedores de IA que operam na China deverão seguir. O foco principal é a proteção de menores, estabelecendo uma série de barreiras e mecanismos de controle para impedir que a interação com a tecnologia se torne prejudicial.
As regras determinam que as empresas de IA implementem funcionalidades específicas em seus produtos. Isso inclui a obrigação de oferecer configurações personalizadas para o público infantil, estabelecer limites de tempo de uso para evitar a exposição excessiva e, crucialmente, obter o consentimento explícito dos pais ou responsáveis antes de oferecer serviços de "companheirismo emocional" a menores.
Uma das medidas mais impactantes é a exigência de intervenção humana imediata. Se um chatbot detectar uma conversa que indique risco de suicídio ou autolesão, a plataforma deverá ter um operador humano para assumir a interação e notificar imediatamente os responsáveis ou um contato de emergência do usuário.
Além da proteção contra danos psicológicos, a regulamentação também impõe restrições severas ao tipo de conteúdo que a IA pode gerar. Fica proibido criar ou disseminar material que promova jogos de azar, que ameace a segurança nacional ou que prejudique a "honra e os interesses nacionais".
Essas medidas representam uma das tentativas mais robustas do mundo para regular o conteúdo gerado por IA em larga escala, indo além das discussões e entrando no campo da implementação prática.
Para os usuários, especialmente pais e responsáveis, a notícia traz um potencial alívio. A regulamentação promete um ambiente digital mais seguro, onde a interação de crianças com a IA será supervisionada e controlada. A medida aborda diretamente preocupações crescentes sobre a influência de chatbots na saúde mental dos jovens, um debate que ganhou força após incidentes trágicos, como o processo movido por uma família na Califórnia contra a OpenAI.
Para o mercado, o impacto é duplo. Por um lado, as empresas de IA na China, como as gigantes DeepSeek, Z.ai e Minimax, enfrentarão custos maiores de desenvolvimento e conformidade. Por outro, a clareza regulatória pode acelerar a adoção em massa da tecnologia, ao aumentar a confiança do público e criar um padrão de operação. A longo prazo, empresas que se adaptarem podem ganhar uma vantagem competitiva baseada em segurança e confiabilidade.
A iniciativa da China é um marco na corrida global pela regulamentação da IA. Enquanto o Ocidente ainda debate a melhor forma de abordar os riscos da tecnologia, o governo chinês avança com regras concretas e de amplo alcance.
O futuro da IA não será moldado apenas pelos avanços tecnológicos, mas também pelo arcabouço legal e ético que construiremos ao seu redor. A China deixou claro que, para ela, a proteção da nova geração é uma prioridade inegociável. Resta saber como o resto do mundo responderá a este chamado para uma IA mais responsável.